Dicionário

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Artigo incluído na revista Volume VIII :: No.1 :: Julho 2012

YOGA


O YOGA é um conceito que se refere às tradicionais disciplinas físicas e mentais originárias da Índia, estando a palavra associada a práticas meditativas. No mundo ocidental, o YOGA foi adoptado como uma prática de actividade física, que tem a vantagem de ser calma e relaxante. No entanto, aparece, por vezes, também imbuído da vertente espiritual, geralmente associada à promoção de um estilo de vida que inclui a meditação e outros aspectos mais prosaicos como a alimentação. Numa sociedade tão materialista como aquela em que vivemos, o lado comercial compromete por vezes alguma seriedade que os promotores pretendam conferir ao YOGA.

A prática preconizada pelo YOGA é, em si, interessante, pois é imbuída de interiorização e aprendizagem do controlo corporal no seu sentido mais abrangente. Há no entanto, um inconveniente que decorre do baixo nível de preparação dos que propagam esta prática e o seu refúgio, muitas vezes artificial e guiado por fins comerciais, no lado religioso e fundamentalista frequentemente associado à prática do YOGA.

Coloca-se agora a necessidade de explicar porque se fala de YOGA num dicionário como o de Laboreal, considerando nomeadamente a minha área que é a da Ergonomia. Em primeiro lugar, porque há que derrubar alguns argumentos em prol do exercício físico como forma preventiva de alguns efeitos nocivos de trabalho mal concebido e estruturado; em segundo lugar, porque é necessário clarificar o que é Ergonomia e o seu alcance em contexto laboral. O YOGA, como prática de exercício físico ou como filosofia de vida, não tem realmente qualquer relação com Ergonomia.

A escassez do mercado de trabalho para absorver jovens profissionais oriundos de formações que recomendam práticas assentes no exercício físico levou-os a descobrir novos nichos de mercado que parecem proliferar. E não é só em Portugal que isto se passa, pois, para além do Brasil, onde há algumas organizações oferecendo este tipo de produto, na Europa também se tem verificado idêntica proliferação do exercício físico como meio preventivo de lesões músculo-esqueléticas no trabalho. O discurso adoptado é interessante, pois a ideia é vendida subtilmente como um substituto da Ergonomia, que preconiza condições de trabalho adequadas às características e ao modo de funcionamento humanos, assim como à natureza das tarefas em jogo. A criação destas condições ou a transformação das que existem e devem ser optimizadas envolve custos muito mais elevados do que umas aulas de YOGA ou outra prática que seja apresentada como a solução preventiva eficaz e eficiente (baixo custo). Temporariamente, esta decisão é bem sucedida porque é agradável, envolve uma interrupção do trabalho e as pessoas andam felizes e até pensam que os problemas de saúde diagnosticados ou que tinham começado a surgir estão resolvidos. No entanto, isto não passa de uma panaceia, pelo que, a médio prazo, os problemas que não foram verdadeiramente prevenidos e atacados na sua génese, manifestam-se, por vezes seriamente agravados. Há ainda outro argumento utilizado pelos promotores destas práticas: é que elas oferecem exercícios de compensação relativamente às solicitações dominantes no quotidiano de trabalho. O problema é que o ser humano não é apenas a estrutura aparente nem funciona como uma engrenagem mecânica composta pelas peças que estão à vista. Esta perspectiva mecanicista foi há muito abandonada, pois o ser humano funciona globalmente. As decisões são guiadas por objectivos e motivações; as acções são programadas e controladas a nível do sistema nervoso central em função das tarefas em vista, expressando o modo de sentir, as competências e a experiência acumulada. A prática de uma actividade física pode efectivamente ser benéfica e promotora de bem-estar se for bem escolhida e orientada. No entanto, isto é essencialmente uma decisão pessoal, uma escolha entre uma vasta oferta para a qual se sugere orientação em função da idade e de outros factores de ordem pessoal. As organizações poderão eventualmente estimular os seus colaboradores a praticar uma actividade física, como forma de promoção de um outro equilíbrio, proporcionando-lhes aconselhamento, tal como proporcionam outros benefícios. No entanto, esta prática não substitui a necessidade de conceber ou transformar o trabalho de modo a garantir as condições adequadas aos objectivos de uma produção eficiente e sustentável, que envolve obviamente uma evolução satisfatória do estado de saúde de quem trabalha.

O exercício facultado pela prática de YOGA pode ser interessante e enriquecedor pelo potencial da aprendizagem da própria corporalidade, mas não substitui nem escamoteia de forma nenhuma a baixa qualidade das condições técnicas, organizacionais e ambientais de trabalho existentes em muitas organizações.


Anabela Simões