Dicionário

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Artigo incluído na revista Volume VII :: No.2 :: Dezembro 2011

WORKAHOLIC


O uso coloquial costuma designar uma pessoa que ingere álcool em excesso – de acordo com certos critérios científicos e sociais – como um alcoólico; pelo contrário, resulta um tanto descabelado (e um tanto desafinado) qualificar alguém que trabalhe em excesso como Trabalhógico. No primeiro caso (tomado só a título de exemplo), à raiz da palavra álcool, agrega-se o sufixo – ico (da terminação latina icus, cujo significado denota a referencia à raiz) formando um adjetivo derivado: alcoólico. Logo, este adjetivo pode substantivar-se através do chamado um enfático, neste caso um alcoólico. A palavra trabalho, no entanto, não apresenta em castelhano possibilidades similares de adjetivação. Portanto, retém-se com válida a expressão inglesa workaholic a propósito da letra W deste glossário, segundo requer a Real Académia Española a respeito da utilização de vozes de procedência estrangeira.

Aprofundando o significado do conceito, a consulta da Enciclopédia Britânica (trata-se de um vocábulo Inglês) indica-nos que se trata de: a) um trabalhador compulsivo; b) um adjetivo: workaholic; c)um substantivo: workaholism; e d) uma data: 1968.

Se se correlaciona a sua frequência de uso em determinados circuitos e práticas sociais com o nível de informação aportado, a escassez parece ser o rasgo predominante. E isto torna-se mais evidente quando, na mesma enciclopédia, se compara o dito conceito com outros que, a priori, navegam em águas similares, como os conceitos de burn-out, mobbing ou stress.

Em primeira instância, tanto o carácter compulsivo da ação (daí a fácil associação semântica entre o sujeito workaholic e o sujeito alcoholic), como a referência bibliográfica que a literatura assinala como fundadora, intitulada: Confessions of a workaholic: the facts about work adiction (Oates, W. 1971) sugerem o carácter psicopatológico do problema, mais associado às características individuais das pessoas as confissões de um professor de religião neste caso do que às complexas relações que se entretecem entre os indivíduos e as novas modalidades de organização do trabalho, modalidades estas que, muitas vezes, produzem consequências seriamente negativas sobre a saúde e a segurança das pessoas.

Mas também, e sempre dentro de um enfoque comportamental, alguns autores sugerem sugerem que existiria uma faceta positiva no workaholism que corresponderia aos “Happy Workaholics”. Este atributo psicológico parecia estar reservado àqueles que ocupam posições de liderança gestionária, e permitiria aos seus subalternos distribuírem os seus compromissos e os seus recursos de forma mais equilibrada entre o trabalho e outras dimensões da vida: a família, a comunidade, visando o bem-estar físico, psicológico e espiritual.

Outros trabalhos tentam equiparar o fenómeno ao que no Japão se denominou “Karoshi”, ou morte por “excesso de trabalho”, apesar de, paradoxalmente, fazerem “l’impasse” do significado do trabalho nesse contexto e da prática social que dele se desprende. Além disso, e já numa lógica de “despsicologizar” o problema, o Karoshi é reconhecido no Japão como doença profissional pela jurisprudência, fenómeno que certamente influenciou a modificação da Lei de Saúde e Segurança Industrial desse País, com o fim de garantir a segurança e a saúde dos trabalhadores no local de trabalho.

Esta forte marca individual na qual se ancora o conceito parece ter o seu correlato na ordem metodológica. Com efeito, os instrumentos de análise limitam-se quase exclusivamente à avaliação, mediante questionários auto-administrados, dos traços psicológicos individuais, gerando uma série de categorias nas quais se enquadrariam as personalidades mais ou menos “workaholics”.

Inversamente, ferramentas destinadas a indagar os aspectos organizacionais e sociais que poderiam estar envolvidos neste tipo de problema são muito menos mencionados e os estudos científicos são, no mínimo, escassos.

Em síntese, o conceito de workaholic não parece ter evoluído da mesma forma que outros, como o stress, mediante a incorporação do conceito de factores de riscos psicossociais. Isto mostra claramente a necessidade de enriquecer os modelos quando se trata de compreender as interações entre as pessoas e os contextos nos quais estas têm lugar, e as suas consequências para a saúde e o bem-estar das mesmas.


Mario Poy