O tempo nas situações de trabalho assemelha-se a uma espécie de ecologia temporal, num conjunto de tempos embutidos e entrecruzados (Grossin, 1996). Por isso talvez seja mais apropriado não falar do tempo, como é tradição na filosofia, e sim dos tempos, de temporalidades heterogêneas. Há um convívio simultâneo entre um tempo único, linear, seqüencial, homogêneo, tempo espacializado medido pela sucessão de instantes materializados no relógio e um outro que estabelece laços e ligações, que percorre diferentes temporalidades simultaneamente, um tempo-devir - qualitativo e psicológico -, entendido como duração. O primeiro apresenta critérios precisos: deve ser reprodutível, regular, mecânico, neutro, definido com uma seqüência de instantes separados por espaços equivalentes. Funcionalmente, o tempo espacializado serve para: 1) quantificar, pois introduz-se o cálculo e a medição do tempo; 2) regular conjuntos de interações da sociedade permitindo que processos qualitativamente heterogêneos tornem-se possíveis pela noção de “encontro” (entre pessoas, entre um trem e um grupo etc); 3) orientar a sociedade e as pessoas possibilitando a previsão (processo de datação introduzido pelo calendário). Esse tempo será sempre o mesmo: nenhum segundo (ou datação) tem mais valor que outro. São os acontecimentos que situamos nesse tempo que estão carregados de valor e de sentido (Zarifian, 2002). Esse tempo espacializado, denominado por Elias (1998) como um símbolo social, apóia-se na definição consensual de uma norma que estabelece a duração (anual, semanal, diária) do trabalho e das pausas (de descanso ou de férias) postulando ainda, implicitamente, uma estabilidade do funcionamento humano, sejam quais forem as horas e as durações do trabalho (Quéinnec, 2007). Entretanto, para enfrentar o desafio de considerar as pessoas nos mundos do trabalho, e as temporalidades nelas presentes, é necessário considerar o conjunto dos outros movimentos possíveis. Ou seja, impõe-se um tempo relacional da duração, um tempo-devir. De acordo com uma visão antropocêntrica Quéinnec (2007) identifica quatro componentes do tempo profissional: tempo dentro do trabalho, que diz respeito às exigências temporais das tarefas e à dinâmica dos processos técnicos; tempo de trabalho, concernente ao contrato de trabalho, à definição das durações e horários da atividade profissional; tempo do trabalho, que delimita a distribuição de espaços do trabalho e de não-trabalho configurando-se no uso do tempo; tempo no trabalho que diz respeito às características temporais do funcionamento humano. Considerando essas visões do tempo, falar sobre a relação tempo e trabalho obriga-nos ao uso da noção (ou do conceito) de tempo no plural. Os componentes dentro do, de, do e no trabalho colocam aqueles que trabalham em situações conflituosas, que requerem a mobilização de adequações e estratégias para atender às solicitações do processo de produção em foco. Conflitos que devem ser percebidos na atividade e nas construções de saúde do corpo-si, (cf vocabulário da ergologia) e que abarcam tanto o plano físico, como o psíquico e o social. É essa ecologia temporal que está presente nos mundos do trabalho.
Primeira pista de reflexão: mudanças nas organizações e flexibilização
Pensar essa ecologia remete à reflexão sobre o tempo nas sociedades contemporâneas, pois nos mundos do trabalho as normas temporais também têm se modificado. A norma temporal dita fordista, consolidada no contexto industrial por intermédio de uma combinação complexa entre formas de estabilização de mão-de-obra, delimitação do espaço e do tempo de trabalho e racionalização taylorista da produção, talvez não continue sendo hegemônica no século XXI. A partir dos anos 80 e 90 do século XX tem havido uma tendência crescente à diversificação dos tempos de trabalho, inseparável daquela mais geral das formas de emprego/salariato. Durante as últimas décadas, outras possibilidades se apresentaram, uma vez que em espaços significativos dos mundos do trabalho, este processo tem se tornado ainda mais complexo, a diversificação dos interesses dos empregadores encaminham-se para a busca de flexibilidade e há uma clara modificação da composição do assalariado graças, dentre outros fatores, ao aumento das qualificações disponíveis e do emprego feminino. Essas mudanças parecem tornar mais pertinente a noção de disponibilidade temporal (Martinez, 2007) que representaria, talvez de maneira mais adequada, as tentativas de sincronização das atividades produtivas e os processos de diferenciação do assalariado. Verifica-se uma individualização do tempo e uma tendência a anualização de horas trabalhadas e de descanso reveladas em arranjos diversos como contratos de tempo parcial, horários de trabalho não usuais, banco de horas etc. Assim, os marcos temporais podem estar mais fluidos, entretanto, quer se conte ou não o tempo de trabalho, a eficácia da organização apóia-se basicamente na disponibilidade temporal (em todos os planos) e na implicação subjetiva dos trabalhadores (e o tempo tem um potencial decisivo como doador de sentido). De tal maneira que as formas de disponibilidade temporal e de aceitação das condições laborais são cada vez mais determinantes no funcionamento do mercado de trabalho e na divisão social e sexuada do emprego (Alaluf, 2000). Essa constatação convoca a necessidade de articulação entre tempo-devir e tempo espacializado.
Segunda pista de reflexão: pólos da ecologia temporal
Na perspectiva ergológica, Schwartz e Durrive (2207) definem a história humana como sendo um espaço de três pólos (da gestão, do mercado e do direito). O primeiro pólo, o da gestão, referente à atividade humana, seria o espaço das dramáticas de uso de si, dos debates de normas, das gestões do e no trabalho. O segundo pólo, na sociedade em que vivemos, é orientado por valores mercantis, do mercado e tem grande peso na reconfiguração do conjunto da vida (social, política, cultural), com valores dimensionados. O terceiro pólo é o espaço onde estão em jogo valores que não são mensuráveis em quantidades: bem-estar da população, seus acessos aos cuidados, o desenvolvimento da cultura, o bem viver em ambiente – urbano, rural, ou planetário. Entre estes pólos há tensão permanente. Os três pólos correspondem a três temporalidades distintas mas relacionadas entre si. Dessa forma, nossas sociedades convivem com o desafio permanente de funcionar em tempos-valor diferentes. De acordo com essa configuração, pode-se pensar as temporalidades vividas em situações de trabalho (Schwartz & Alvarez, 2001).
O pólo do mercado e a temporalidade mercantil: nela parece haver incompatibilidade entre os ritmos da vida individual e objetiva e os tempos de trabalho apreendidos como mercadoria (tempo espacializado). Sustentando esta opacificação extrema, encontra-se o tempo das circulações financeiras, das redes desterritorializadas, dos mercados conectados, do curso instantâneo das taxas de câmbio, das ações, dos produtos derivados, que funcionam em tempos cada vez mais curtos e que parecem ter largado todas as amarras com as outras temporalidades da vida. Entretanto, encontra-se aí também a gestação de um outro tempo-valor, pois se verifica que as renovações teóricas nas relações de mercado passaram a considerar o tempo como fator de incerteza. Vemos se infiltrar aí, nas relações econômicas, uma temporalidade processual, um tempo de acontecimentos, tempo-devir fazendo-nos crer que, possivelmente, o tempo do mercado deva negociar compromissos com outros tempos-valores diferentes dos seus. Se não for assim, como analisar a “relação de serviço” e dos valores aí envolvidos, onde o tempo pode influir de maneira significativa como fator de qualidade na prestação de serviço (Zarifian & Gadrey, 2002). A execução de modo eficaz, que se manifesta no menor índice de perdas e de retrabalho, importante quando se lidam com equipamentos e materiais de alto custo
Dicionário
| A | B | C | D | E | F | G | H | I | J | K | L | M | N | O | P | Q | R | S | T | U | V | W | X | Y | Z |
Artigo incluído na revista Volume VI :: No.2 :: Dezembro 2010
