Dicionário

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Artigo incluído na revista Volume XII :: No.1 :: Julho 2016

PREGUIÇA


Falar a sério sobre esse conceito – preguiça – requer abandonar preconceitos e limites rígidos, abrir a mente e lançar-se numa travessia no plano dos saberes e discursos, desde as antessalas da doutrina religiosa tradicional e da filosofia moral clássica, até sabe-se lá onde se há de chegar quando presos à realidade concreta, na observação da vida social presente. 
 
Fato é que, na herança bíblica e cristã, presença tão forte ainda nesse tempo cosmopolita e multicultural, mesmo em nosso Brasil sincrético e miscigenado também no plano do espírito, a preguiça toma lugar de destaque entre os vícios. Para o senso comum ou a ideologia dominante, no plano dos valores e das normas, acomodada entre os sete pecados capitais, a preguiça não só é vista como defeito grave, mas é tida como “a mãe de todos os vícios”. 
 
E se no universo católico, que deitou raiz na região sul da Europa à beira do mar Mediterrâneo, de onde nos vieram conquistadores e imigrantes, talvez por sobrevivências pagãs, parece ter havido espaço para valorizar o dolce far niente e a siesta, e, em tempos de mosteiros, o silêncio e a calma da casa de retiro hão de ter sido favoráveis para a reza e a contemplação, essenciais para o aperfeiçoamento interior, todavia, na época moderna, os reformadores do cristianismo, dos países mais ao Norte dos quais também nos chegaram imigração e influências ideológicas, passaram a dar um novo peso moral à atividade, à profissão e ao trabalho, como expressão de fidelidade, como virtude e, mesmo, como condição de salvação. 
 
É bom lembrar que, na antiga Grécia dos primeiros filósofos, o ócio era mais valorizado do que o trabalho, carga atribuída aos escravos, e era do ócio que se esperava surgisse o pensamento, a capacidade de pensar e de julgar. O que os gregos concebiam como skholé provavelmente não era idêntico ao que hoje entendemos como ócio, lazer ou tempo livre, e não teria o constrangimento moral da preguiça proibida, pois parece ter sido prezado como condição importante para a aprendizagem e a criação, haja vista o que de skholé ainda sobra na palavra escola. Tal carga positiva do ócio segundo os gregos antigos nos chegou pela cultura latina e ibérica, e pode ser reivindicada como antídoto à mania do trabalho dos tempos modernos – aliás, mania proveitosa e útil, sobretudo, para os donos dos meios de produção e para os exploradores da mão de obra trabalhadora. 
 
Nosso grande continente latino-americano e, nele, o modo de vida brasileiro e tropical, não se restringiu às influências culturais do Velho Mundo que acima referimos e, certamente, em nossa combinação de heranças, como bem expressava o Macunaíma de Mário de Andrade (1986), assimilamos outras substâncias do que recebemos pelo leite de nossas mães indígenas e africanas, de modo que os traços e costumes da cultura mais típica de nossas regiões suavizaram a culpa associada à preguiça pela doutrina