Dicionário

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Artigo incluído na revista Volume V :: No.1 :: Julho 2009

METIS


Metis, termo de origem grega, cujo significado, apontado por BAILLY no seu grande Dicionário de Grego, é «astúcia, artifício».A reabilitação do termo e a sua mobilização para o campo da psicologia do trabalho e, particularmente, para a ergonomia, deve-se a um processo de ressemantização operado por alguns filósofos e ergónomos, de que se destacam respectivamente VERNANT e DEJOURS, que contribuíram para lhe fixar, diversificando-as, algumas funções semânticas que se revelaram indispensáveis para pensar as novas relações entre o trabalho e a organização.Na linha das investigações que puseram em causa o taylorismo, foi assumindo destaque o princípio de que o exercício do trabalho não se limita a ser a aplicação de competências previamente adquiridas ou previamente codificadas, o que implica admitir, quanto à concepção e formas de organização da actividade laboral, a distinção crucial entre o trabalho prescrito e o trabalho real. O reconhecimento desta distinção não decorre da identificação de qualquer insuficiência teórico-metodológica ou técnico-científica imputável aos estudos que regem o complexo das condições científicas da formação para o trabalho, mas da radical assunção do princípio de que o desempenho no trabalho pressupõe o envolvimento subjectivo do sujeito humano através daquilo que, depois de Aristóteles, se foi designando por «inteligência prática». A especificidade desta «inteligência prática» está intimamente ligada ao corpo, pelo que o desenvolvimento da actividade passa, necessariamente, por uma temporalidade perceptiva em acto substancialmente diferente do raciocínio lógico que implica uma anterioridade abstracta. Significa isto que o exercício do trabalho é submetido a um regime intuitivo complexo assente em grande parte nas disposições corporais e disponibilidades psico-somáticas, bem como na experiência imediata e nas rotinas ágeis que precedem o saber propriamente dito.É neste contexto que tem lugar o recurso ao conceito de metis.Com ele se pretende, justamente, caracterizar aquela forma de actividade humana, simultaneamente vivencial e experiencial, sinóptica e sagaz, como é típico da inteligência prática quando exercida no quadro dum corpo saudável, animicamente empenhado. As noções de perspicácia, astúcia e esperteza, naturalmente associadas a modos de acção onde o biopsiquico se conjuga habilmente com a articulação meios/os fins, traduzem fielmente esta ideia de metis. Não é, assim, por acaso que o desenvolvimento deste conceito no interior da psicologia do trabalho, vem sendo atravessado por preocupações de ordem ética e terapêutica, designadamente quando as condições de trabalho são geradoras de mal-estar físico e psicológico que põem em causa o espontâneo exercício da metis. Como tem sido posto em evidência pela psicopatologia do trabalho, esse exercício é fundamental na realização do projecto da identidade pessoal e social, uma vez que passa por aí toda a energia que suporta o fluxo do investimento pessoal em busca do reconhecimento identitário. Efectivamente, na perspectiva da preservação do equilíbrio psico-somático, mais do que a retribuição material assegurando a sobrevivência dos trabalhadores, conta a contribuição simbólica do trabalho correspondendo à «obra» de si, enquanto efeito social desejado, o que está na base do trabalho como investimento de si na construção da própria identidade. Como já dizia Hegel, o trabalho «forma» no sentido de que humaniza e subjectiviza o que, sem ele, é pura natureza/objecto.Essa contribuição, porém, torna-se problemática quando não estejam garantidas as condições de exercício da criatividade pessoal, da iniciativa e da concepção/invenção nos espaços de trabalho em consequência de défices de organização ou de degradação das condições em que ele se realiza. É neste contexto que tem lugar a negação do direito à contribuição pessoal no campo do trabalho o que implica a possibilidade de emergência dos bem conhecidos fenómenos da frustração, do sofrimento e da «consciência infeliz» cuja expressão pode revestir múltiplas formas de criatividade negativa, como estratégias compensatórias, que vão desde a adopção de formas de excesso de zelo, ao devaneio e ao refinamento das rotinas ou atingir formas mais drásticas de recorte claramente patológico.


Manuel Matos