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Artigo incluído na revista Volume III :: No.1 :: Julho 2007

EXPERIÊNCIA


Para dizer o que significa Experiência, em tão poucas linhas, apenas podemos tentar identificar, avaliar, o significado que a palavra assumiu para nós em quarenta anos de trabalho no domínio da psicologia do trabalho ergonómica.

No início, colocámo-nos apenas o problema de recolher a Experiência do trabalhador. Os sujeitos envolvidos éramos nós - como sujeito - e o outro - o trabalhador - como objecto da investigação.

De facto, o trabalhador é o elemento central da nossa investigação: o trabalhador, o produtor, ou melhor, os trabalhadores singulares que compõem o grupo que corresponde a um dado posto de trabalho, “territorizado”, isto é, identificado num contexto preciso, enquanto lugar único, que não se pode repetir. O posto de trabalho é por isso considerado como a unidade produtiva elementar.

Preferimos hoje falar da Experiência do trabalhador como uma Experiência complexa e bruta. A sua complexidade está associada ao facto do trabalhador construir antes de tudo:

1 – Uma Experiência relativa ao seu modo de produzir. Definimo-la como “bruta”, porque pode assumir a forma de conhecimento apenas utilizável para executar o trabalho; um conhecimento ainda a um nível analógico. Essa Experiência “bruta”, “analógica”, coloca ao investigador o problema de como a recolher, ou melhor, de como a “construir” com o trabalhador, para a tornar “digital”, ou seja, transmissível aos outros.

2 – Uma Experiência do modo de produzir que pode tornar-se, no conhecimento do trabalhador, uma Experiência que permite acelerar e enriquecer o processo de produção da própria Experiência de trabalho. Ela determina a formação do “know-how”, da memória da empresa.

3 – Uma Experiência relacionada com a influência das condições de trabalho sobre a saúde (geralmente em sentido negativo mas não necessariamente). Enquanto que os dois primeiros tipos de Experiência interessam à organização do trabalho e são memorizados, este último tipo nem sempre tem sido objecto de interesse para a memória da organização: não se dá o devido interesse ao valor da Experiência do trabalhador na procura de solução para as doenças profissionais que dizem respeito a um dado posto de trabalho.

O médico generalista conhece o trabalhador singular como pessoa, na sua globalidade e no seu quotidiano; consequentemente a sua Experiência interessa-lhe. Mas o aspecto que o médico prestador de cuidados costuma ignorar, nos seus elementos essenciais, é o meio de trabalho concreto do sujeito; sobretudo, ignora a possibilidade de utilizar essa Experiência do trabalhador para um diagnóstico correcto desse caso e de outros similares que se lhe sucedam.

Foi com a convicção de que era possível e desejável agilizar os interfaces entre o médico generalista e as Experiências singulares de trabalho/saúde, e entre ambos e a Comunidade em que se inserem, que tentámos desenvolver um sistema complexo integrador de Experiências (o SIC [1] na sua forma actual). Este Sistema tem como base o trabalhador no seu grupo/posto de trabalho, o médico generalista, e uma série de especialistas que têm o dever (face ao Estado, face aos trabalhadores) de:

A – observar;
B – medir;
C – se confrontar com os parâmetros científicos de risco;
D – se confrontar com os parâmetros legislativos;
E – sanear os postos de trabalho, erradicando as doenças profissionais (por serem consideradas elimináveis).

Num esforço de síntese diríamos, para ilustrar a importância que atribuímos a esta “Experiência de integração de Experiências”, que, se há mais de 30 anos tivéssemos reunido os mesmos tipos de especialistas (Trabalhadores afectados / Médicos generalistas SIC / Membros de Comités de Higiene e de Segurança / Inspectores / Responsáveis de organismos de Estado e delegados regionais da saúde / Secretário do SIC / Responsável do projecto SIC), teríamos certamente tido uma discussão interessante, mas não teríamos construído as Experiências [2] que é hoje possível partilhar. Faltavam para isso os instrumentos procedimentais de integração que foram sendo pouco a pouco construídos, para que todos pudéssemos trabalhar juntos para um re-saneamento dos postos de trabalho.

Reunir hoje esses mesmos tipos de especialistas significa encontrar-se face a um sistema capaz de se auto-regular e de integrar o plano dos trabalhadores singulares num plano colectivo.

Esses instrumentos procedimentais de integração que caracterizam o SIC são os seguintes [3]:

1 – As Instruções ao sósia. Trata-se do suporte metodológico que permite colocar-se sempre face ao homem produtor enquanto sujeito rico de uma Experiência que o especialista não possui. Considera a Experiência “territorizada”, isto é, ligada ao posto de trabalho concreto no qual o sujeito opera. Baseia-se no principio de que quem participa na modificação de um posto de trabalho deve conhecer todas as fases do processo que será modificado, de forma exaustiva, integrada, sem clivagens. Mas isto vale para a Experiência do trabalhador como para a do médico generalista.

2 – A Escala de consciência reflectida. Não se pode integrar os especialistas a não ser com base numa escala de consciência reflectida (que encontra no primeiro patamar o trabalhador produtor e o médico generalista). Aqui, a integração é garantida pela superação do nível individual da Experiência do especialista singular.

3 – A Gadeca - galeria dos casos – reúne os casos conhecidos por um grupo de médicos generalistas que trabalham no SIC e os gerem de forma rigorosa, com procedimentos adequadamente predefinidos.

4 – A Gadepost - galeria dos postos de trabalho – reúne os postos de trabalho conhecidos como “A SANEAR” porque produziram, pelo menos, um caso de doença profissional reconhecida.

5 – O Comité de Saneamento. Conjunto complexo de sujeitos, integrados ao nível do conhecimento dos conteúdos, por via dos instrumentos procedimentais de integração. Isto significa para estes sujeitos a possibilidade de SUPERAÇÃO do nível individual de responsabilidade, para construírem, juntos e progressivamente, uma Gadepost dos postos de trabalho SANEADOS.

6 – A Gadepost dos postos de trabalho SANEADOS representa o índice/indicador da superação do nível individual e da utilização social dos conhecimentos sobre o meio de trabalho.

São estes os instrumentos de integração de Experiências de funções diversas que permitem o desenvolvimento de uma acção colectiva e, por conseguinte, a Experiência de um sistema complexo, centrado sobre o enriquecimento da Experiência do produtor e do médico generalista em função e em benefício do homem.

NOTAS

[1] Sistema de Informação Concreta.

[2] O plural refere-se, por um lado, ao conjunto de experiências singulares a partir das quais foi possível evidenciar (no sentido de tornar evidentes, óbvios) problemas de saúde “singularmente comuns” e agir simultaneamente no sentido da sua eliminação e da sua utilização no diagnóstico de novos casos; e, por outro lado, à experiência do desenvolvimento, desde há quase 3 décadas, deste sistema de integração de experiências singulares ao qual demos o nome de SIC.

[3] Para uma descrição mais detalhado dos elementos constituintes do SIC, bem como do seu funcionamento, pode consultar-se, por exemplo, o texto de Vasconcelos e Lacomblez, no Vol. 1, N.º 1 assim como o de Barros e Lacomblez, no Vol. 2, N° 2.desta revista.


Ivar Oddone