Dicionário

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Artigo incluído na revista Volume IX :: No.2 :: Dezembro 2013

ESQUEMA


Sob o seu célebre quadro de um cachimbo, Magritte escreveu: "Isto não é um cachimbo. É a representação de um cachimbo. Isto não é a representação de um cachimbo. É a representação da minha representação de um cachimbo".

Nesta mesma lógica, o dicionário "Le Petit Robert" define um esquema como uma "figura que dá uma representação simplificada e funcional de um objeto, movimento, processo". Pensemos no esquema de um edifício ou de um motor, no esquema de princípio de um dispositivo elétrico ou eletrónico ou, no presente número de Laboreal, nos dois esquemas apresentados, respetivamente, por Ochanine (1969) como a variante tecnológica e a variante psicológica do circuito de óleo de uma central térmica. Neste texto, iremos tratar, de um modo geral, de grafismos técnicos que apresentem as mesmas características de figuração do objeto ou funcionamento (desenhos técnicos, planos nomeadamente).

Ao transcrever esta definição para o meio profissional, um esquema surge, antes de mais, como uma linguagem gráfica que tanto permite a produção de um documento pelos concetores e desenhadores, como a sua transmissão com vista à sua utilização pelos operadores. É, portanto, um documento operacional cuja escrita baseada num sistema semiótico permite a comunicação entre diferentes operadores, um trabalho coletivo. Este sistema é reconhecido através do carácter sistemático do código utilizado, quer se trate de um código imagético, simbólico ou arbitrário em função do seu grau de abstração relativamente ao elemento codificado. O conjunto dos elementos ou unidades semióticos que constituem um esquema associa significados e significantes que se distinguem ou opõem uns aos outros: símbolo de uma resistência ou condensador num esquema elétrico, de uma porta num plano arquitetural, etc. Podem ser associadas unidades textuais (comentários) ou numéricas (medidas), bem como unidades relativas ao funcionamento do próprio código (por exemplo, traço indicando um corte).

Enquanto figuração (igualmente designada por representação externa), o esquema inclui uma multiplicidade de campos conceptuais de referência que será necessário conhecer com vista à sua elaboração, compreensão e utilização. Deste modo, para além do conhecimento do sistema de codificação dos elementos, são necessários conhecimentos tecnológicos e/ou geométricos para compreender um desenho industrial, princípios de física para interpretar esquemas elétricos ou até conhecimentos em psicologia caso se pretenda facilitar a compreensão de um funcionamento tecnológico ao propor uma "imagem operativa" (Ochanine, 1969 e no presente número de Laboreal).

Estas características dos esquemas tornam-no num instrumento individual ou coletivo para resolver problemas técnicos ou profissionais. Significa que a sua produção e respetivas utilizações interagem com atividades finalizadas que não são apenas gráficas e vão da concepção de um produto até à sua realização e, até mesmo, à sua manutenção ou reparação. A complexidade dos esquemas e grafismos técnicos, bem como dificuldades de aprendizagem em formações técnicas e profissionais resultaram num conjunto de investigações sobre as atividades cognitivas associadas à sua elaboração, função, compreensão e utilizações.

Vamos começar por ilustrar as articulações entre grafismo, objeto e campos conceptuais de referência através do exemplo da elaboração de um esquema observado por ocasião de um estudo de conceção de fornos para a indústria do vidro (Weill-Fassina & Perceval, 19