Dicionário

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Artigo incluído na revista Volume IX :: No.1 :: Julho 2013

DIALOGISMO


Inseparável do conceito de diálogo (etimologicamente diálogos: troca entre pessoas), a noção de dialogismo remete primitivamente à sua acepção retórica, a arte dialógica consistindo em apresentar sob forma de diálogo as ideias ou os sentimentos atribuídos a personagens. Categoria filosófica de origem platoniciana, e pensamos na maiêutica socrática, o diálogo é concebido como a alternância entre parceiros, a intenção de significar por um, encontrando a capacidade do outro para reatualizar esta por sua própria conta. Todavia, o mestre do jogo, Sócrates neste caso, mantém-se também mestre das palavras.

No entanto, trata-se da questão da alteridade, sob um duplo aspecto - um outro enquanto determinante (outra pessoa), ou enquanto substantivo (um outro, possível ou impossível), que é fundamental nas perspectivas abertas às ciências humanas pelas diversas teorizações do dialogismo, seja subjacente, indefinida, ou ainda especificada e por vezes inscrita em uma abordagem descritiva.

Na tradição filosófica, deve-se a Wittgenstein a ruptura mais acentuada com a perpetuação mais ou menos redutora dessa concepção primitiva, segundo a qual apenas compreenderíamos uma proposição ao preço da “descodificação” de uma mensagem previamente “codificada” pelo seu produtor. A ideia pode então se desenvolver por intermédio do “compartilhamento do sentido” entre interlocutores, ao final do qual, segundo Jacques (1979), o diálogo seria uma forma transfrástica do discurso, em que cada enunciado é, de fato, determinado na sua estrutura semântica por uma articulação entre sentido e valor referencial, em sua teia de regras pragmáticas assegurando a propriedade de convergência. “Forma transfrástica”, “articulação”, “convergência”, termos que, de um certo ponto de vista, inscrevem o diálogo em uma nova concepção de dialogismo. Parceiros, locutor e alocutário, se eles constroem em situação sua relação verbal por e na interação que os aproxima e opõe, devem recorrer ao patrimônio virtual dos signos que eles detêm em comum, ao menos parcialmente.

Um eixo é assim oferecido ao desenvolvimento de uma corrente de pensamento pela qual prima a primeira das duas concepções de alteridade: a ênfase é aí dada a um dialogismo, segundo o qual a primazia é dada à responsabilidade conjunta dos parceiros do diálogo, em um processo interdiscursivo em que os signos podem adquirir ou transformar suas significações, ao longo das fases de construção comum, em função das situações de interação. Teorias dos atos de discurso, em pragmática, da interação, assim como a análise da conversa estão inscritas nessa perspectiva, enquanto se desenvolve igualmente do lado da psicologia um dialogismo interlocutivo centrado no estudo das relações intersubjetivas e sua evolução, ao sabor dos encadeamentos discursivos e dos eventos dialógicos.

Mas é provavelmente à corrente originada inicialmente em trabalhos de teóricos soviéticos da literatura que devemos a noção mais atual de dialogismo, particularmente em seu desenvolvimento transversal às problemáticas mais debatidas desde a segunda metade do século XX. Vamos nos contentar em situar, sumariamente, o ponto de partida dessa corrente determinante no mo