Dicionário

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Artigo incluído na revista Volume I :: No.1 :: Dezembro 2005

ACTIVIDADE


Omnipresente na nossa linguagem quotidiana, a noção de actividade permanece, no entanto, num estado nebuloso, trocada como uma moeda usada, sem veicular com ela trajectórias de pensamento balizadas ou operacionais. Nisto ela distingue-se dos conceitos estruturados que, por isso mesmo, beneficiam duma prestigiosa história intelectual, como a “acção” ou a “produção”.

Contudo, há cerca de uma dezena de anos, podemos constatar efervescência e renovação desta noção em diversos campos científicos. Porquê esta efervescência e porquê falar de “renovação”?

 

“Efervescência”: a noção de actividade torna-se base ou ingrediente de abordagens teóricas, em campos de onde ela não estava ausente mas nos quais permanecia conceptualmente pouco explícita. O horizonte que chamaremos, em sentido lato, da subjectividade em acto é como um “ lugar natural ” para a ideia de actividade: quaisquer que sejam os ângulos de abordagem ou teorias do sujeito, sujeito do desejo, sujeito da linguagem, sujeito de aprendizagem, sujeito pensante,... sem espaço de debate do “sujeito” com os seus recursos, a sua história, face à necessidade de assumir o seu presente, simplesmente não existe objecto para as diversas ciências humanas aqui evocadas. A actividade está gravada nas mesmas, mas há cerca de dez ou quinze anos, ela instrumenta explicitamente ou redesenha as fronteiras, os objectivos, as metodologias destes diversos campos: as pesquisas sobre a actividade cognitiva, a acção e a cognição situadas, a psicologia e a clínica da actividade, a pragmática da linguagem. Sectores de confluência, como a gestão, tentam apropriá-la e formalizá-la com a noção de “actividade colectiva”, e de modo muito sintético, a ergologia.

 

Sem dúvida correntes como o interaccionismo na sociologia, uma melhor apreciação do pragmatismo filosófico, extensões novas da fenomenologia tiveram o seu papel. Mas permitimo-nosuma hipótese: a promoção da noção de actividade, a partir dos anos 80, por esta corrente da ergonomia que foi justamente caracterizada como “ergonomia da actividade” (Faverge, A. Wisner, P. Cazamian…), desenvolvida na Europa francófona, na Escandinávia, na América do Sul, pôde representar um papel importante na transformação, em conceito matriz, uma noção até então nebulosa nestas diversas ciências humanas.

 

Falando de forma esquemática: o interesse por “o que está a ser feito / o que se está a fazer” característico dos debates do sujeito encontra, principalmente com a distinção entre trabalho prescrito e trabalho real, uma perspectiva muito mais ampla: a actividade torna-se o lugar de uma dialéctica onde agora é precisoarticular os debates do sujeito com todos os tipos de normas apreendidas no horizonte histórico-social. Estas normas devem ser pensadas como anteriores aos sujeitos que com elas têm que lidar, mas também é a história destes sujeitos, anterior a estas normas, que permite abordar localmente o resultado das negociações de onde resulta, a cada vez, a reconfiguração do meio. Com este reposicionamento, a actividade sai das disciplinas apenas do sujeito para ser um caldeirão profundamente enigmático da história, atravessando os campos disciplinares.

 

“Renovação” : porquê falar de renovação desta noção? Porque esta noção de actividade não foi sempre esta moeda usada omnipresente, mas sim uma noção sobre a qual ninguém se detém, que não provocava interrogações ou perplexidade. Pudemos mostrar noutras oportunidades que ela teve a sua épocade ouro na filosofia, de E. Kant (fim do séc. XVIII) a Marx, sob o termo alemão “Tätigkeit”. Hoje não nos parece inútil reter desta história que a actividade entrou na filosofia para tentar designar aquilo que é conceptualmente inalcançável, mesmo se o campo de uso se distendeu: a actividade em Kant é primeiramente o que indica a contribuição ao acto de conhecer, de faculdades completamente heterogéneas, e portanto cuja cooperação é no sentido próprio indescritível, inconceptualizável. ViaHegel, Marx, e a psicologia soviética (Vygotski, Léontiev…), esta noção sintética e transversal vai ser literalmente apropriada pelos ergónomos da actividade no início dos anos 80, mas para designar não mais somente um problema de construção de conhecimentos, como no início, mas sim um problema do “fazerindustrioso”: e através desta expressão, encontramos uma segunda fonte filosófica do conceito actual de actividade, aquela que desde Platão, os Clássicos, Bergson, A. Leroi-Gourhan, G. Canguilhem…, se pergunta também que estranha cooperação entre o corpo e o espírito, o saber e o fazer, a rotina e a renormalização, torna possível a competência industriosa.

 

Que lições tirar desta história para a ver claramente na “efervescência” presente? A nosso ver, que o conceito de actividade, importante para toda inteligibilidade da nossa história e intervenção no nosso presente, é marcado por três características essenciais:A transgressão: nenhuma disciplina, nenhum campo de práticas pode monopolizar ou absorver conceptualmente a actividade; ela atravessa o consciente e o inconsciente, o verbal e o nãoverbal, o biológico e o cultural, o mecânico e os valores...A mediação: ela impõe-nos dialécticas entre todos estes campos, assim como entre o “micro” e o “macro”, o local e o global...A contradição (potencial): ela é sempre o lugar de debates com resultados sempre incertos entre as normas antecedentes enraizadas nos meios de vida e as tendências à renormalização resingularizadaspelos seres humanos.


Yves Schwartz