Artigo incluído na revista Volume 13 :: No.1 :: Julho 2017

O Dicionário

Trabalho

Roland Le Bris1
(1) Transversales
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Como pensar o trabalho?

Como pensar o que resulta de uma evidência quotidiana mas que no entanto escape a uma definição límpida, cristalizada, especializada (Schwartz, 2004)? Certamente podemos imaginar uma posição nominalista, segundo a qual o trabalho seria caracterizado como sendo “a designação social de certas ações humanas” (Dujarier, 2016, p 101). Mas qual é, então o alcance de uma tal definição?

Como pensar o que se identifica frequentemente com o emprego ao ponto de mascarar a sua espessura? Confundir trabalho e emprego não significa também ocultar o que há de comum e o que circula, como experiência, entre, por um lado, o trabalho caracterizado como uma prestação remunerada inscrita num regime de direitos e, por outro lado, os registos menos visíveis, tal como o trabalho doméstico? Não será precipitado assimilar o trabalho ao facto de "ocupar um posto", de "assumir uma profissão" ou de "se reconhecer num ofício" (Lhuillier, 2016, p 132, tradução livre)? Não será, paradoxalmente, desconsiderar a importância das variáveis características das condições de emprego, tanto no que se relaciona com as modalidades e os impactos de uma rutura de contrato de trabalho como os direitos, associados ou não a este ou aquele emprego, em matéria de formação, de assistência médica, de reforma, …? E assim subestimar o impacto do desemprego, nomeadamente sobre a saúde (Lhuilier, 2016, p 151)?

Como pensar o que tanto se transformou? De facto, as formas contemporâneas do trabalho apresentam características diferentes das suas modalidades anteriores: distanciamento de manipulações materiais diretas, aplicação de normas industriais na maioria das organizações do trabalho, introdução de uma dimensão de serviço em grande número de atividades, maior dificuldade em identificar o produto do trabalho, inserção em sistemas complexos caracterizados pela multiplicidades de partes interessadas internas ou externas às organizações, solicitação inédita da subjetividade, «gestão desencarnada» (Dujarier, 2015, tradução livre), «heterogeneidade crescente dos locais e dos momentos concedidos ao trabalho» (Bidet & Vatin, 2016, p 26, tradução livre).

Como pensar o que se dá a ver primeiro, e por vezes unicamente, como constrangimento, submissão às regras, hétero determinação mas que seria impossível e invivível se não fosse assim (Schwartz, 2010)? Como pensar o que é objeto de incessantes reorganizações nas economias contemporâneas? Como pensar o que escapa a modalidades de conhecimentos simplificadores, exteriores, distanciados?
Como pensar o que resulta de campos disciplinares distintos, constituídos por referência a uma especialidade instituída no pressuposto de um postulado de cientificidade ou, de forma alternativa, em investigação de uma abordagem interdisciplinar preocupada com as análises e os protocolos de intervenção apropriados a uma matéria viva?

As ergo disciplinas

Em língua francesa, em consonância com alguns raros percursores (em particular Alain Wisner), apesar destes obstáculos, um pensamento do trabalho desenvolveu-se a partir do início dos anos 1980, em campos diferentes, a psicanálise, a ergonomia, a filosofia, … sob o impulso nomeadamente de Christophe Dejours, François Daniellou e Yves Schwartz, ao ponto de doravante constituir um vasto corpo de textos, até mesmo de práticas, no quadro abundante das «ergo disciplinas» (Daniellou, 2015). Mesmo se esta noção não é necessariamente consensual, apresenta o interesse de identificar o que há de comum entre análises que resultam de profissionalidades e de histórias diferentes, que se cruzam e se enriquecem mutuamente, e que estruturam um horizonte partilhado. Seria em vão tentar repor a riqueza em algumas linhas. Esbocemos simplesmente alguns pontos estruturantes deste pensamento em construção.

A passagem pela atividade constitui um eixo maior no desenvolvimento das ergo disciplinas. É na análise do trabalho como atividade que “provavelmente se concretiza a relação histórica de confraternidade entre a ergonomia (da atividade) e a démarche ergológica” (Schwartz, 2016, p 181, tradução livre). A própria existência de um livro intitulado “L’activité en théories. Regards croisés sur le travail [A atividade em teorias. Olhares cruzados sobre o trabalho]” (2016) testemunha o quanto pensar o trabalho como atividade criou as condições para ultrapassar obstáculos epistemológicos face aos quais um pensamento do trabalho se confronta inicialmente.

Iniciada, já algum tempo, pela ergonomia, o pôr em evidência de um desvio entre tarefa e atividade tornou-se uma referência comum às ergo disciplinas que não deixaram de desenvolver o seu potencial de exploração. Adotar o ponto de vista da atividade consiste, então, em revelar, mesmo em situação de constrangimento extremo, a parte de iniciativa da pessoa que trabalha sem a qual o resultado não poderia ser alcançado, “esta invisível e enigmática passagem da potencia ao ato” (Schwartz, 2016, p 181, tradução livre).

Introduzido por outras démarches disciplinares nos anos 1980, a subjetividade referida nesta tomada de iniciativa enriquece o conhecimento do trabalho como atividade. A escolha realizada entre uma gama de possíveis exerce-se por referência a um valor que a pessoa no trabalho mobiliza, frequentemente implicitamente. Daí o conceito ergológico de debate de normas que confere ao real da atividade “uma consistência, um volume, uma densidade e, admitimos nós, abre um horizonte de problemas filosóficos, epistemológicos, ético-políticos incontornáveis e particularmente intensos” (Schwartz, 2016, p 181, tradução livre). Daí igualmente o termo “o trabalhar” utilizado em psicodinâmica do trabalho para dar conta do “comprometimento do corpo e da inteligência para lá do próprio tempo da atividade de produção, no sentido em que o esforço se prolonga para além desta última num tempo fora do trabalho, até no trabalho do sonho” (Dejours, 2016, p 91, tradução livre). Daí, enfim, uma identificação do trabalho “como um conflito entre registos impessoal, transpessoal, interpessoal e pessoal (Clot, 2016, p 74, tradução livre). O registo impessoal releva do domínio da prescrição do trabalho. O registo transpessoal inscreve o trabalho n’“uma história dos meios profissionais” (Clot & Stimec, 2013, p 117, tradução livre). O registo interpessoal significa que o trabalho “tem sempre um destinatário” (Clot & Stimec, 2013, p 117, tradução livre). O registo pessoal sublinha a implicação subjetiva direta da pessoa no trabalho, o que tem de íntimo, incorporado, irredutível na atividade própria de cada um. Esta referência abundante à subjetividade e à intersubjetividade contém, ela também, desafios estruturantes. Importa, com efeito, sublinhar que quando a psicologia do trabalho “não tem a atividade por unidade de análise e como objeto de ação” e que ela “abandona a finalidade prática de um desenvolvimento efetivo dos recursos psicológicos e sociais nas organizações para as mudar, balança frequentemente entre a gestão de riscos e a reparação de pessoas sem se poder voltar a ligar concretamente ao tomar conta do trabalho” (Clot & Simonet, 2015, p 34, tradução livre).

O ponto de vista da atividade conduz as ergo disciplinas a propor um modo de conhecimento específico. Por vezes por referência a uma análise clínica, o conhecimento do trabalho como atividade supões uma investigação precisa, rigorosa, fundada numa cointerpretação distanciada de uma postura altiva. Em ergologia, a dinâmica dos saberes repousa num dispositivo de três polos que cria as condições para um encontro de saberes da experiência, académicos e de organização a fim de perspectivar reservas de alternativas. Yves Clot sublinha a importância de uma controvérsia social sobre o trabalho bem feito, sabendo que ele retorna a uma clínica da atividade a sustentação desta controvérsia na ausência, para o fazer, de uma instituição oficial na empresa (Clot, 2016). Para a ergonomia da atividade, o objetivo de intervenção que se segue a uma análise é a organização do trabalho sabendo que “as únicas ações sobre a organização que valem são aquelas conduzidas associando os próprios trabalhadores” (Gaudard & Rolo, 2015, p 18, tradução livre).

As ergo disciplinas partilham então “a referência – o que não é insignificante - ao trabalho real e ao trabalho prescrito… o facto de que a saúde é uma construção… o facto de que a mulher ou o homem que estão no trabalho estão lá com toda a sua história, etc.” (Daniellou, 2015, p 14, tradução livre).

Elas diferenciam-se, no entanto, na relação com as disciplinas académicas pelo facto da desconfiança ergológica relativamente a esta divisão, e mesmo de uma reivindicação de indisciplina, que pode conduzir a duvidar da pertinência da própria noção de ergo disciplina. Elas separam-se na sua relação com a ação, com a intervenção. Assim, a ergologia é concebida como uma démarche enquanto que a ergonomia da atividade se exerce como uma profissão.

Trabalho produtivo e trabalho improdutivo

Destaca-se desta rápida e esquemática apresentação que, sem uma passagem pelo ponto de vista da atividade, um pensamento vivo do trabalho não pode emergir. No entanto, enquanto que a análise do trabalho como atividade ainda não desenvolveu todas as suas potencialidades, podemo-nos interrogar sobre o interesse que haveria em reinvestir em problemáticas específicas do trabalho, sem se partilhar os adquiridos obtidos por referência à atividade.

Desfavorecida por um pensamento económico contemporâneo que tende a abandonar esta questão, a análise do trabalho como produção poderia desenhar uma destas perspetivas possíveis. O primeiro texto da obra coletiva “L’activité en théories. Regards croisés sur le travail [A atividade em teorias. Olhares cruzados sobre o trabalho]” identificou a questão afirmando que “pensar o trabalho como atividade produtiva”, é “voltar ao próprio sentido do conceito de trabalho” (Bidet & Vatin, 2016, p 26, tradução livre). Assim, este texto dedica um lugar central ao trabalho como “agir criativo”. Mas não se reconcilia com a velha oposição entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo ao se perguntar se “uma atividade reputada como improdutiva” poderia ser “duravelmente considerada como trabalho”? Como então fazer a parte do que seria produtivo e do que não o seria? Quais seriam as formas de trabalho que finalmente seriam excluídas do campo do trabalho na medida em que elas seriam socialmente reconhecidas como não sendo produtivas?

Desde o fim do século XVIII, Adam Smith tinha distinguido “uma espécie de trabalho que acresce valor ao objeto sobre o qual se exerce” e um outro, “o trabalho não produtivo”, “que não tem o mesmo efeito” (Smith, 1991, p 417, tradução livre). Lembrando os “méritos científicos” de Adam Smith por ter procedido a esta clarificação concetual, Karl Marx tinha precisado que o trabalho improdutivo não se trocava “contra o capital mas imediatamente contra uma retribuição” (Marx, 1974, p 167, tradução livre). A partilha entre trabalho produtivo e trabalho não produtivo não é, desde logo, determinada nem pela natureza do produto, nem pela qualidade do trabalho, nem pelas suas características. Assim, “um comediante por exemplo, um palhaço mesmo, é em consequência um trabalhador produtivo, a partir do momento em que trabalha ao serviço de um capitalista, a quem ele retribui com mais trabalho que não recebe sob a forma de salário” (Marx, 1974, p 167, tradução livre). Se adotarmos este raciocínio, isso significa que o trabalho não é produtivo se não se inserir num processo de valorização do capital. Ou será mais conveniente adotar uma caracterização menos precisa mais englobante segundo a qual o trabalho se torna produtivo se estiver inserido num processo que o socializa e se é criador de valor, a valorização do capital não sendo uma modalidade, entre outras, de atribuição de valor? Um professor por exemplo exercitaria um trabalho produtivo na realização da sua profissão numa organização, privada num processo de valorização do capital, ou pública, num processo de valorização de um bem comum – mas não se desse aulas particulares no âmbito unicamente interpessoal?

Pensar o trabalho como atividade produtiva suporia então interrogar-se sobre o facto de saber “o que é produzir?”. Uma tal interrogação não teria todo o seu lugar ao lado de “o que é viver?” ou “o que é viver em saúde?”, estas questões maiores que se inscrevem no fio direito de um pensamento do trabalho como atividade? (Schwartz, 2016).