Artigo incluído na revista Volume III :: No.2 :: Dezembro 2007

O Dicionário

Género

Karen Messing1
(1) Université du Québec à Montréal
Case postale 8888 Canada H3C 3P8
messing.karen@uqam.ca

Presido um Comité da Associação Internacional de Ergonomia, que se chama Gender and Work, o que se traduz por “género e trabalho". Estou, portanto, considerada como uma especialista na matéria e deveria poder definir-vos o que é o género e porque é que os ergónomos se devem interessar por este assunto. A definição da palavra “género” passa por uma distinção com a palavra "sexo". Utiliza-se "sexo" para designar as características determinadas, nos homens ou nas mulheres, pelos cromossomas e "género”, para as características, habitualmente mais interessantes para ergónomos, determinadas socialmente (Messing et Chatigny 2004).

Aí está. Salvo que... não é tão evidente. Primeiro porque em ergonomia a palavra "género" tem também todo um outro sentido. Efectivamente, Clot e Faïta (2000) utilizam-na para falar das maneiras de fazer comuns que permitem que as pessoas de um mesmo ofício se reconheçam. Mas de seguida e sobretudo porque, quando voltamos a reflectir, a palavra começa a mudar de forma, a enredar-se sobre si mesma, a flutuar no ar e a colocar-se mesmo fora do nosso alcance.

De facto, mesmo em inglês, quanto mais a palavra "género" se torna moda, mais os paradoxos se acumulam. O que quer dizer esta descrição do Journal of Women´ s Health (http://www.liebertpub.com/publication.aspx?pub_id=42): "a revista é o recurso essencial para os avanços de ponta... na biologia baseada no género”? O que poderia ser "biologia baseada no género”??? Um simples problema de escrita ou de distracção? Ou há aqui um problema fundamental de definição destes conceitos?

Eu enredei-me neste paradoxo aquando da revisão de um dos nossos artigos em inglês sobre a repartição das tarefas – com fortes componentes físicas – entre os homens e as mulheres que exercem a actividade de auxiliares de acção médica nos hospitais (Messing et Elabidi, 2002; ver também Messing e Elabidi, 2001). Homens e mulheres sofriam, aproximadamente na mesma medida, de problemas lombares. Vários homens e mulheres do serviço queixavam-se de que as mulheres não faziam ou não podiam fazer a sua parte do trabalho físico. A observação revelava que as mulheres faziam muito mais que a sua parte das tarefas identificadas como fisicamente exigentes pelo pessoal, mas que se recorria sobretudo aos homens para as vezes, raras mas que não se podem subestimar, onde as circunstâncias exigiam um esforço extraordinário ou quando havia um perigo físico impressionante. Nós concluímos que os estereótipos sobre os homens e as mulheres sustentavam uma sobrecarga física para os dois grupos (sobrecarga crónica para as mulheres, aguda para os homens) e obstaculizavam a prevenção dos problemas lombares.

A redacção da revista assinalou-me que o texto era incoerente, referindo-se umas vezes ao sexo, outras vezes ao género. Eu fiquei indignada (Francamente! Dou cursos a esse propósito!) mas, antes de carregar sobre a tecla "Enviar", somente por uma questão de consciência, pus-me a re-escrutar o texto para me assegurar que cada escolha de termo era justificável. Para me dar conta que cada decisão me exigia saber, para cada fenómeno observado, qual era a parte respectiva da genética e da educação. O problema punha-se desde a recepção do pedido. O pessoal dos dois sexos (géneros?) sente a necessidade de um estudo ergonómico. É um problema que releva da biologia? Da definição e da distribuição das tarefas?

Efectivamente, formular correctamente a questão requer que se saiba de avanço o resultado do estudo. E, mesmo no fim, deve-se dizer: "é o sexo (ou o género?) dos auxiliares de acção médica que é responsável pelas diferenças na capacidade de levantar cargas?" A escolha da palavra corresponde a tomar uma decisão sobre a parte das hormonas, da nutrição, do "saber-fazer", do treino físico, da fadiga associada às responsabilidades domésticas, da motivação, do orgulho masculino, e de quantos outros factores na construção diferenciada destas capacidades. E, para os ergónomos, a escolha do termo complica-se pela nossa compreensão da importância da interacção entre a pessoa e o posto (ver para esse efeito o capítulo 3 de Messing [2000]). O homem de tamanho médio será colocado em desvantagem se os instrumentos, os equipamentos, os arranjos são demasiado pequenos e vice-versa para as mulheres. Sexo e género parecem intimamente interligados.

Não é o único tipo de situação problemática. Os homens sofrem mais problemas de joelhos que as mulheres, e estas mais de problemas de pescoço (Arcand et coll., 2000). Uma análise de factores de risco faz realçar que certos elementos da sua situação respectiva de trabalho poderiam estar implicados e explicar as prevalências de problemas de pescoço (Stock & al., 2007). Ah! Portanto, fala-se de diferenças ligadas ao género. Mas vê-se também que as trabalhadoras que sofrem de sub-peso têm menos frequentemente dores de pescoço, e isto a um nível estatisticamente significativo, enquanto que os homens magros têm significativamente mais problemas de pescoço. Diferença ligada ao complemento hormonal dos dois sexos? Ao facto de que a dor de pescoço está associado ao trabalho sentado ao computador e que os homens com uma constituição mais forte estão mais frequentemente em empregos que têm uma maior componente de esforço dinâmico, enquanto que este factor jogaria menos no caso das mulheres?

Vê-se que a decisão entre género e sexo se torna muito difícil. É importante para os ergónomos? Eu responderia que, se o termo não é muito importante, a reflexão que ela impõe o é imensamente. No caso das diferenças de tamanho e de força, os ergónomos devem ser sensíveis à concepção de equipamentos e espaços, o que tem por efeito a exclusão de um ou outro sexo (género) ou a sua exposição a um maior risco de perturbações músculo-esqueléticas (TMS). Por exemplo, no último congresso PREMUS, Pete Johnson apresentou a origem da distância entre os toques do teclado do computador: as dimensões da mão do percentil 95 dos homens! O que, de acordo com ele, aumenta o risco de TMS para as mulheres e as crianças. Outro exemplo: o facto de esquecer que as mulheres devem esconder os seus seios em empregos onde elas são fortemente minoritárias resulta em equipamentos (exemplo cintos de instrumentos com uma correia que passa entre os seios) que as mulheres não querem levar.

Até agora menciono sobretudo as mulheres. Mas há também desafios de género para os homens. A preponderância de acidentes e de acidentes mortais entre estes é o reflexo de uma fraqueza genética? Ou da divisão sexual (baseada no género?) dos riscos?

No quadro das diferenças homens/mulheres ao nível da prevalência das queixas (TMS ou outras), os ergónomos devem pôr-se em guarda contra os estereótipos que sustentam que tal ou tal sexo é mais sensível por razões genéticas, ou que tal ou tal género se queixa por nada. O exame da divisão sexual dos empregos, das condições de emprego, das tarefas e dos modos operatórios e da sua adequação com os programas de formação é essencial à compreensão dos fenómenos que interessam os ergónomos.

E, entre as pistas de transformação consideradas pelos ergónomos, seria talvez necessário considerar incluir mudanças nas relações sociais de sexo no trabalho. Bernard Pavard (Wisner et coll. 1997: p.1) disse "a análise ergonómica do trabalho (...) deve ser dirigida pelo conjunto de problemas identificados sobre o terreno e que fazem sentido relativamente a um objectivo de melhoria das condições de trabalho, vida e de produção da empresa".

Então o que fazer com a nossa palavra? Actualmente, tenho tendência a utilizar "sexo/género" ou a utilizar um dos dois precisando que não tenho a intenção de fazer a determinação da origem original dos fenómenos. Mas, tendo em conta a ignorância actual na matéria diria também, parafraseando Léon Zitrone "que se fale bem ou mal do género, pouco importa. O essencial, é que se fale dele!"